Inversores e Transformadores
IAC. Curso de Manutenção de Aeronaves — Matérias Básicas (AC 65-9A). Instituto de Aviação Civil. Cap. 8: Eletricidade Básica (Transformadores) — Acessar material
FAA. Aviation Maintenance Technician Handbook — General (FAA-H-8083-30A). U.S. Department of Transportation, Federal Aviation Administration. Cap. 12: Aircraft Electrical Systems (Inversores) — Acessar material
AC 65-9A = Advisory Circular da FAA (base do curso IAC) · MCA 58-13 = material de referência de manutenção aeronáutica
Prof. Fabriciu Alarcão Veiga Benini
Professor de Ensino Básico, Técnico e Tecnológico
Área Aeronáutica
Engenheiro Eletricista · Mestre em Sistemas Dinâmicos · Doutor em Telecomunicações
INSTITUTO FEDERAL DE EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA DE SÃO PAULO
Campus São Carlos
Ao final desta semana, o aluno será capaz de:
CC → CA
converte corrente contínua em corrente alternada
400 Hz
frequência típica de saída (ciclos por segundo)
26 VCA
tensão para instrumentos
115 VCA
tensão para sistemas gerais
Alimenta equipamentos que requerem CA a partir da bateria CC da aeronave · Fonte: FAA Ch.12, p.12-95
f = frequência em Hz · P = número de polos · N = rotação em RPM
Nota: em aeronaves antigas (válvulas), o inversor também alimentava rádio e radar, que usavam a CA de 400 Hz para gerar suas altas tensões — os equipamentos modernos operam em CC
Motor CC + gerador CA no mesmo eixo
Solução eletromecânica clássica
Circuitos eletrônicos de estado sólido (semicondutores)
Convertem CC → CA por chaveamento rápido dos semicondutores (detalhe no slide 15)
Ambos podem ser monofásicos ou polifásicos (trifásico — três fases defasadas entre si)
O inversor polifásico é mais leve para a mesma potência nominal: a potência é entregue de forma contínua, sem pulsação, permitindo máquinas menores
Essencialmente um motor CC e um gerador (alternador) CA em um único invólucro — o motor CC gira o eixo; o gerador CA, montado no mesmo eixo, produz a CA de saída
Campo do gerador (ou armadura) e campo do motor (ou armadura) montados em eixo comum
O conjunto gira dentro do invólucro
Tipos principais: ímã permanente e tipo indutor — os tipos empregados na aviação
Campo = produz o magnetismo
Armadura = onde a tensão/torque acontece
Fonte: FAA Ch.12, p.12-95 a 12-96
Fig. FAA 12-202 — Inversor rotativo trifásico: motor CC e alternador CA no mesmo eixo.
Fig. FAA 12-201 — Diagrama de fiação interna do inversor rotativo de ímã permanente (monofásico).
Motor CC + gerador CA de ímã permanente
Cada um possui estator separado no mesmo invólucro
Armadura do motor montada no rotor, conectada à CC via comutador e escovas
Enrolamentos de campo do motor montados no invólucro (conectados à CC)
Fonte: FAA Ch.12, p.12-96
Rotor de ímã permanente na extremidade do eixo oposta ao motor (sem escovas para a saída CA)
Rotor do gerador: 6 polos magnetizados (N/S alternados)
Ao girar, o ímã permanente gira dentro das bobinas do estator CA
Fluxo magnético corta os condutores → tensão CA induzida; polaridade muda a cada passagem de polo
Fonte: FAA Ch.12, p.12-96
Rotor de lâminas de ferro doce (não é ímã permanente)
Ranhuras cortadas na superfície lateral (periferia) do rotor formam os polos
Número de polos do rotor corresponde ao número de polos do estator
Duas bobinas estacionárias: campo (CC) e armadura (CA)
Fonte: FAA Ch.12, p.12-96 a 12-97
Fig. FAA 12-203 — Inversor rotativo tipo indutor: núcleo, linhas de fluxo, campo CC e saída CA.
CC aplicada às bobinas de campo → campo magnético produzido
Relutância = resistência ao fluxo magnético: quando os polos do rotor se alinham com os polos estacionários, a relutância é baixa e o fluxo aumenta
A variação da relutância varia o fluxo na bobina da armadura CA → induz tensão (lei de Faraday — slide 28)
Tensão controlada pela corrente de campo do estator CC
Fig. FAA 12-204 — Vista em corte do inversor tipo indutor: armadura, rotor, comutador, escovas e ventilador.
É o par complementar do inversor: enquanto o inversor converte CC → CA (ex.: cargas de emergência), o moto-gerador converte CA → CC (alimenta cargas CC a partir do barramento CA). Em alguns projetos os dois coexistem.
Vantagens:
Inércia da armadura: fonte de energia momentânea em falhas (energia cinética do rotor mantém a geração por instantes)
Tolerância a variações de temperatura
Menos falhas por superaquecimento
Fonte: IAC Cap 8, p.8-108
| Critério | Ímã permanente | Tipo indutor |
|---|---|---|
| Rotor | Ímã permanente | Ferro doce laminado |
| Escovas na saída CA | Não | Não |
| Controle de tensão | Fixa (pelo ímã) | Ajustável (corrente de campo) |
| Complexidade | Menor | Maior |
| Aplicação típica | Sistemas simples | Sistemas que exigem regulação — barramentos que alimentam instrumentos e cargas CA (tensão estável) |
Fig. FAA 12-205 — Distribuição CA com inversores rotativos principal e reserva.
Aeronaves podem ter inversor principal + inversor reserva
Chave seletora permite comutação entre fontes
Barramento CA alimenta: instrumentos, iluminação e cargas CA de 400 Hz
Fonte: FAA Ch.12, p.12-97
Substituem os rotativos em muitas aplicações
Baseados em semicondutores: transistores, tiristores, MOSFETs (transistores de efeito de campo de metal-óxido-semicondutor)
Sem partes móveis — o avanço tecnológico permite aplicações antes impraticáveis
Fig. FAA 12-206 — Inversor estático instalado na aeronave — sem partes móveis.
Fig. FAA 12-207 — Diagrama de blocos do inversor estático de onda senoidal regulada.
Regulador CC estabiliza a entrada · Oscilador gera a referência de 400 Hz · Buffer isola o sinal · Keyer monta a forma de onda · Filtro suaviza para senoidal · Transformador eleva a tensão · Fonte: FAA Ch.12, p.12-97 a 12-98
Fig. FAA 12-208 — Bateria auxiliar com inversor estático alimentando giroscópios e ADF.
Fontes de alimentação CA para equipamentos sensíveis à frequência
Sistemas CA de emergência de aeronaves
Conversão de faixa de frequência ampla (gerador acionado por motor de velocidade variável) para 400 Hz fixa
Aeronaves pequenas: uso crescente
Fonte CA de emergência de 250 VA a partir da bateria — giroscópios e ADF em aeronaves leves e jatos executivos
Fonte CA principal de 2.500 VA (gerador de frequência variável)
VA × W: VA = tensão × corrente (potência aparente) · W = potência real dissipada pela carga · fator de potência = W/VA — por isso a potência de emergência é especificada em VA
Fonte: FAA Ch.12, p.12-97
Converte baixa tensão CC (ex.: 28 V CC da bateria) em tensão CA mais elevada (ex.: 115 VCA)
Regulação de tensão: tolerância < 1% com mudança total de carga
Regulação de frequência: ~1 Hz para carga 0–100%
Saída senoidal de alta qualidade
Fonte: FAA Ch.12, p.12-97 a 12-98
Menos perda de energia que os inversores rotativos
Sem escovas, comutadores ou rolamentos para desgastar
Sem desgaste mecânico
Nenhum período de aquecimento — operação imediata
Fonte: FAA Ch.12, p.12-97
Capaz de partir sob carga — não precisa estar em vazio para ligar
Operação extremamente silenciosa — sem ruído mecânico
Resposta rápida a mudanças de carga — regulação dinâmica superior
Resfriamento por condução: o calor é dissipado pela base/carcaça para o suporte de montagem — não depende de ventilação forçada (fluxo de ar)
Fonte: FAA Ch.12, p.12-97
ATT
DG
Onda senoidal pura — para equipamentos sensíveis
Onda quadrada — para cargas simples
Onda modificada — aproximação senoidal por degraus (tipo trapezoidal) — uso geral
Pequeno porte — VA baixos (instrumentos, giroscópios)
Médio porte — centenas de VA (cargas CA de médio porte)
Grande porte — kVA (sistemas principais e de emergência)
Fonte: FAA Ch.12, p.12-97 a 12-98
| Critério | Rotativo | Estático |
|---|---|---|
| Partes móveis | Sim (desgaste) | Não |
| Manutenção | Alta (escovas, comutador) | Mínima |
| Eficiência | Menor | Alta |
| Ruído | Significativo | Silencioso |
| Peso | Elevado | Reduzido |
| Partida sob carga | Limitada | Sim |
| Regulação de tensão | Moderada | Excelente (< 1%) |
| Custo inicial | Menor | Maior |
| Vida útil | Limitada (desgaste) | Longa |
Fonte: FAA Ch.12, p.12-95 a 12-98
Inversor Rotativo
fonte principal
comutação
Inversor Estático
reserva
Inversor = CC → CA
dispositivo que converte corrente contínua em corrente alternada para alimentar os sistemas de bordo
Motor CC + gerador CA no mesmo eixo; ímã permanente (simples, sem escovas na saída CA) e tipo indutor (ferro doce, tensão ajustável)
Semicondutores, sem partes móveis; onda senoidal, quadrada ou modificada; alta eficiência e baixa manutenção
Padrão da aviação para ambos os tipos — equipamentos mais leves e compactos que em 60 Hz
Instrumentos (giroscópios, autosyn, magnesyn), iluminação e sistemas de emergência
Qual a principal função de um inversor em uma aeronave?
R.: Converter corrente contínua (bateria) em corrente alternada para alimentar equipamentos que requerem CA (instrumentos giroscópicos e cargas CA).
Cite duas diferenças construtivas entre o inversor de ímã permanente e o tipo indutor.
R.: (1) Rotor: ímã permanente × ferro doce laminado; (2) controle de tensão: fixa (pelo ímã) × ajustável pela corrente de campo.
Quais as vantagens de um inversor estático sobre um rotativo?
R.: Alta eficiência, baixa manutenção (sem partes móveis), longa vida útil, operação imediata, silencioso, parte sob carga e resposta rápida a mudanças de carga.
Por que a frequência de 400 Hz é usada na aviação?
R.: Para a mesma tensão, frequência maior exige fluxo magnético menor → núcleos menores → equipamentos mais leves e compactos, economizando combustível.
Confira as respostas e, em caso de dúvida, revise os slides anteriores
Inversores convertem CC → CA para alimentar os sistemas de bordo
Uma vez gerada a CA, precisamos transformar seus níveis de tensão
Na sequência: Transformadores
Veremos: princípios, relação de espiras, tipos, perdas e panes
Fonte: IAC Cap 8, p.8-91 · FAA Ch.12, p.12-66
Altera o nível de tensão CA sem partes móveis
Baseado na indução eletromagnética (lei de Faraday)
Duas bobinas eletricamente independentes com acoplamento magnético
Núcleo de ferro laminado
lâminas finas isoladas reduzem perdas
Enrolamento primário
recebe a tensão de entrada
Enrolamento secundário
entrega a tensão transformada
Fonte: IAC Cap 8, p.8-91
ε = tensão induzida (V) · N = número de espiras · ΔΦ = variação de fluxo (Wb) · Δt = intervalo de tempo (s) · o sinal negativo = lei de Lenz (a tensão induzida se opõe à variação do fluxo)
Exemplo: N = 100, ΔΦ/Δt = 0,01 Wb/s → ε = 100 × 0,01 = 1 V
CC pura não funciona: o fluxo é constante — sem variação, não há indução (ε = 0)
Fig. IAC 8-197 — Transformador com núcleo de ferro: primário, secundário e linhas de força magnética.
SEM carga
Circula só a corrente de excitação (magnetização)
COM carga — 4 passos
Fontes: IAC Cap 8, p.8-91 · FAA Ch.12, p.12-66
Vp = tensão no primário · Vs = tensão no secundário · Np, Ns = número de espiras
Primário com 500 espiras, secundário com 100 → relação 5:1 abaixador
115 V ÷ 5 = 23 VCA
Fig. IAC 8-199 — Transformadores de redução (5:1) e elevação (1:4): contagem visual de espiras.
Ex.: 115 V → 26 V (instrumentos e iluminação)
tensão desce · corrente sobe
Ex.: 26 V → 115 V
tensão sobe · corrente desce
Isolamento galvânico — separação elétrica; acoplamento apenas magnético
Transformador de redução 5:1 e de elevação 1:4 (exemplos do FAA Ch.12, p.12-67) · Fonte: IAC Cap 8, p.8-92
transformador ideal — conservação de energia: não gera nem consome energia
Se a tensão sobe, a corrente desce na mesma proporção (e vice-versa)
VA × W: carga resistiva → potência real (W) · carga reativa → potência aparente (VA) · fator de potência = W/VA
Primário: 115 V × 2 A = 230 W
Secundário (abaixador 5:1): 23 V × 10 A = 230 W
mesma potência — tensão e corrente invertem proporcionalmente
Transmissão: elevar a tensão na geração reduz a corrente na linha → menos perda I²R (detalhe no slide 43) — na aeronave, a tensão é elevada e rebaixada nos pontos de uso
elevação/redução em fontes
20 Hz a 20 kHz
núcleo de ar, altas frequências
enrolamento único com tap
medição de corrente
Fig. IAC 8-200 — Transformador de potência com núcleo de ferro.
Fig. IAC 8-201 — Símbolo com núcleo de ferro e secundários de 5 V, 6 V e alta tensão.
Fig. IAC 8-206 — Tomadas do secundário: 30 V, 60 V, 90 V e 120 V em um único enrolamento.
Faixa de potência: miliwatts (rádio) a quilowatts (geradores e cargas de bordo)
Fonte: IAC Cap 8, p.8-92 a 8-94
Projetados para operar na faixa de áudio: 20 Hz a 20 kHz
Núcleo de ferro laminado de alta permeabilidade (permeabilidade = facilidade do material em conduzir fluxo magnético)
Resposta de frequência plana na faixa de operação
Apenas um secundário (diferente de RF, que pode ter múltiplos taps)
Diferenciação: Potência (50–400 Hz) × Áudio (20 Hz–20 kHz) × RF (> 20 kHz)
Aplicações: intercomunicadores, rádios e sistemas de áudio
Fig. IAC 8-202 — Símbolo do transformador de RF com núcleo de ar (sem as barras de núcleo entre as bobinas).
núcleo de ferro (8-201)
núcleo de ar (8-202)
Fig. IAC 8-203 — Autotransformadores: símbolo com taps numerados (A) e simplificado (B).
Tap deslizante: 100 V → ajuste contínuo da tensão de saída
Sem isolamento galvânico entre entrada e saída — risco de contato elétrico entre os dois lados (precaução de segurança)
Fig. IAC 8-198 — Transformador de voltagem (primário em paralelo) × transformador de corrente (primário em série).
O secundário NUNCA deve ser aberto com o sistema energizado!
Secundário aberto (alta impedância) → a corrente de linha força tensão muito alta na bobina → tensões perigosamente altas → superaquecimento e destruição do TC
TC fora de uso (mas instalado): manter o secundário curto-circuitado com jumper (ponte/curto provisório)
| Tipo | Núcleo | Frequência | Aplicação |
|---|---|---|---|
| Potência | Ferro laminado | 50–400 Hz | Fontes, distribuição |
| Áudio | Ferro laminado | 20 Hz–20 kHz | Intercom, rádio |
| RF | Ar / ferrite | > 20 kHz | Circuitos de sintonia |
| Autotransformador | Ferro laminado | 50–400 Hz | Ajuste de tensão |
| Corrente (TC) | Toroidal (anel) | 50–400 Hz | Proteção, medição |
Transformadores reais não são 100% eficientes — parte da energia de entrada se perde em forma de calor
Crescimento quadrático: I = 1 → P = R · I = 2 → P = 4R · I = 3 → P = 9R · I = 4 → P = 16R — dobrar a corrente quadruplica a perda
Núcleo maciço (vórtices grandes) → laminações finas isoladas (vórtices confinados).
| Perda | Causa | Como reduzir |
|---|---|---|
| Histerese | Inversão dos domínios magnéticos | Aço-silício de grão orientado |
| Correntes parasitas | Correntes induzidas no núcleo | Laminações finas isoladas |
Em aeronaves com geração CA trifásica (ex.: barramento de 208 VCA trifásico, visto no moto-gerador):
Fig. IAC 8-208 — Ligação Y (estrela): terminal comum (neutro); V_fase = V_linha/√3 → 208 V → ~120 V.
Fig. IAC 8-209 — Ligação Δ (triângulo): bobinas fechadas em série.
Fig. IAC 8-204 — Gerador trifásico com 3 condutores: contexto do sistema.
Mesmo sendo robustos (sem partes móveis), transformadores podem falhar:
Ohmímetro: aberto → ∞ · curto entre espiras → abaixo do normal · isolamento → megôhmetro.
| Defeito | Teste | Resultado esperado |
|---|---|---|
| Enrolamento aberto | Ohmímetro nas pontas | Resistência infinita |
| Curto entre espiras | Ohmímetro | R menor que o normal* |
| Curto primário-secundário | Ohmímetro entre enrolamentos | R finita (deveria ser ∞) |
| Aterramento (fuga) | Megôhmetro (alta tensão) | Isolamento < especificação |
| Superaquecimento | Observação térmica + carga | Indicador de curto interno |
Fig. IAC 8-210/8-211/8-212 — Testes de enrolamento aberto, curto entre espiras e aterramento.
Método alternativo para curto (IAC):
Determinar se é elevador ou abaixador:
Inversores rotativos
Motor CC + gerador CA; ímã permanente e tipo indutor
Inversores estáticos
Estado sólido; onda senoidal regulada; sem partes móveis
Transformadores
Lei de Faraday; relação Vₚ/Vₛ = Nₚ/Nₛ
Tipos
Potência, áudio, RF, autotransformador, TC
Perdas
Cobre (I²R), histerese, correntes parasitas (Foucault)
Panes
Aberto, curto, aterramento; teste com ohmímetro e megôhmetro